domingo, 5 de setembro de 2021

MANUAL DE COGNIÇÃO E EMOÇÃO

A TRADUÇÃO DO LIVRO HANDBOOK OF COGNITION AND EMOTION SERÁ PUBLICADA NESTE BLOG, SEMANALMENTE (UM CAPÍTULO A CADA SEMANA. TOTAL DE CAPÍTULOS: 29)


MANUAL DE COGNIÇÃO E EMOÇÃO

Handbook of Cognition and Emotion

Michael D. Robinson, Edgar R. Watkins, Eddie Armon-Jones

Tradução: Alexandre L Prado

Original, em Inglês, disponível em: https://www.uv.mx/rmipe/files/2017/12/handbook_of_cognition_and_emotion.pdf

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CAPÍTULO 1

Cognição e emoção. Uma introdução

Michael D. Robinson, Edward R. Watkins e Eddie HarmonJones

 

Nossas vidas intrapsíquicas são dominadas por dois tipos de fenômenos: pensamentos (mais formalmente, cognição) e sentimentos (mais formalmente, emoção). Ambos são eventos internos que não podem ser observados diretamente por outras pessoas e, neste sentido importante, são subjetivos ou, pelo menos, particulares a uma pessoa (Chalmers, 2007). Ambos são parcialmente dependentes de eventos no ambiente, mas parcialmente independentes deles também (Klinger, 1999). Na verdade, uma razão importante pela qual temos pensamentos e sentimentos é, presumivelmente, desacoplar estímulo e resposta e, portanto, permitir maior flexibilidade no comportamento (Scherer, 1984). No entanto, parece haver diferenças importantes entre pensamentos e sentimentos. Os pensamentos se prestam a palavras ou conteúdo proposicional, enquanto os sentimentos parecem não ter esse conteúdo proposicional (Izard, 2009; Pinker, 2007). Os pensamentos muitas vezes parecem seguir uma cadeia ordenada de raciocínio, enquanto os sentimentos parecem operar de maneiras que às vezes não fazem sentido lógico (Epstein, 1994).

Na verdade, os filósofos gregos fizeram uma distinção nítida entre pensamentos e sentimentos (Lyons, 1999). Eles sugeriram que os pensamentos são a fonte da racionalidade e da conduta adequada, ao passo que seguir os sentimentos muitas vezes pode nos causar problemas. A ideia de que pensamentos e sentimentos são fontes distintas de influência, de fato, permeia muitas das principais obras literárias da civilização ocidental. De Platão a Santo Agostinho e Shakespeare, a cabeça (o presumido locus de racionalidade) e o coração (o presumido locus de emocionalidade) sugerem diferentes cursos de ação e frequentemente conflito (Swan, 2009). Normalmente, mas talvez não em todos os reinos (ex., namoro), é considerado mais funcional seguir a cabeça do que o coração (Solomon, 1976).

Na década de 1990, três livros de neurocientistas proeminentes questionaram essa sabedoria convencional. LeDoux (1996) revisou evidências para a ideia de que supostas áreas emocionais do cérebro (e particularmente a amígdala) podem reagir mais rapidamente e talvez mais decisivamente a ameaças físicas ao organismo do que as vias corticais (mais baseadas no pensamento). Panksepp (1998) afirmou que as lesões corticais em animais - preservando as áreas emocionais do cérebro - frequentemente resultam em comportamentos que fazem mais sentido do ponto de vista biológico funcional. Damásio (1994) estendeu essa análise aos seres humanos. Principalmente com base em estudos de caso envolvendo indivíduos com danos cerebrais, concluiu-se que danos às regiões de processamento de emoções do cérebro, mesmo no contexto de capacidades cognitivas intactas, resultam em tomadas de decisão problemáticas e comportamentos interpessoais impulsivos e imprudentes.

O presente Manual não enfoca a questão de saber se os pensamentos (cognição) ou sentimentos (emoção) são mais funcionais. Em vez disso, este material introdutório é suficiente para argumentar que, tipicamente, pensamentos e sentimentos são vistos como entidades distintas com efeitos distintos (ex., Epstein, 1994). No entanto, tornou-se cada vez mais evidente que cognição e emoção frequentemente interagem e talvez não sejam entidades isoladas. Antes de delinear o conteúdo deste manual, consideramos algumas afirmações importantes na literatura sobre cognição e emoção e comentamos sobre elas à luz das presentes contribuições.

 

Afirmações teóricas proeminentes sobre cognição e emoção


Existem afirmações teóricas fortes, mas muitas vezes conflitantes, sobre cognição e emoção na literatura da psicologia. Essas afirmações foram influentes e provavelmente todas contêm um grão de verdade. No entanto, e à luz das presentes contribuições, todas essas declarações são provavelmente muito fortes dadas as evidências. Assim, em cada caso, preferimos uma posição mais moderada. A Tabela 1.1 fornece uma visão geral gráfica das afirmações teóricas e de nossas réplicas.

 

Cognição e emoção operam independentemente?

Um importante livro de LeDoux (1996) revisou vários resultados do trabalho com roedores que favoreciam uma independência de cognição e emoção em termos neurais. Seguindo, mas refinando as sugestões anteriores (MacLean, 1973), foi sugerido que a amígdala é uma estrutura cerebral chave que medeia reações emocionais a ameaças potenciais que não são mediadas cognitivamente. Consistente com este ponto, a amígdala desempenha um papel importante em reações muito básicas a ameaças potenciais, como lutar ou fugir (Fanselow, 1994). Com base em tais dados, LeDoux (1996) geralmente parecia favorecer rotas de processamento distintas para cognição e emoção. No entanto, ele também analisa as evidências de não independência. Na verdade, existe uma conversa cruzada considerável entre as estruturas cerebrais tipicamente consideradas mais cognitivas versus mais emocionais (Ochsner e Gross, 2005). Além disso, Pessoa e Pereira (Capítulo 4 deste Manual) revisam as evidências de que os recursos cognitivos são frequentemente necessários para que a amígdala reconheça e responda a estímulos ameaçadores.

Seguindo esse tema de independência, há casos em que cognição e emoção, ou pelo menos racionalidade e emoção, parecem ter objetivos opostos. Por exemplo, Mischel, Shoda e Rodriguez (1989) colocaram a racionalidade e a emocionalidade uma contra a outra em um delay clássico de tarefa de gratificação em que comer um único marshmallow agora (que o sistema emocional provavelmente favoreceria) impedirá que tenha dois marshmallows mais tarde (que o sistema racional provavelmente favoreceria). Este teste simples demonstrou prever diferenças individuais no autocontrole na adolescência e na idade adulta (Mischel e Ayduk, 2011). Alguns dilemas morais também parecem opor efetivamente os sistemas racional e emocional um ao outro. Por exemplo, as pessoas costumam reagir adversamente ao ter que matar outra pessoa, mesmo que isso seja racionalmente a melhor solução para o dilema (McClure, Botvinick, Yeung, Greene, e Cohen, 2007).

No entanto, também existem vários resultados desafiando a ideia de que cognição e emoção sempre operam de forma independente (Davidson, 2003; Izard, 2009). Por exemplo, existem muitos construtos - como estresse, preocupação, depressão e ansiedade - que possuem características cognitivas e emocionais trabalhando em conjunto. A preocupação, por exemplo, é um híbrido de afeto negativo e pensamento repetitivo e voltado para o futuro (Watkins, Capítulo 21 deste Manual). Talvez mais diretamente, as manipulações relacionadas à interpretação cognitiva, seja envolvendo avaliação (Lazarus, 1991) ou reavaliação (Ochsner e Gross, 2005), têm um efeito profundo nas reações emocionais a estímulos e situações. Além disso, há evidências consideráveis ​​para a ideia de que as manipulações da emoção impactam a cognição, a memória e o julgamento de maneiras sistemáticas e robustas (Forgas e Koch, Capítulo 13 deste Manual; Murray, Holland, e Kensinger, Capítulo 9 deste Manual). Esses resultados não poderiam ocorrer se a cognição e a emoção fossem entidades totalmente independentes e encapsuladas. Em resposta à questão de saber se cognição e emoção operam independentemente, então, sugerimos que a resposta talvez seja às vezes, mas definitivamente nem sempre.

 

A cognição é necessária para a emoção?

Lazarus (1984) sugeriu que a cognição é necessária para a emoção. Com isso, ele quis dizer que não podemos reagir emocionalmente a uma situação até que interpretemos seu significado pessoal. Por exemplo, não podemos reagir com tristeza a uma perda até que a interpretemos. Certamente há evidências de que podemos prever as respostas emocionais das pessoas às situações, conhecendo suas interpretações delas (Smith e Ellsworth, 1985). Por outro lado, considere os resultados potencialmente importantes de Reisenzein e Hofmann (1993). Eles apresentaram cenários às pessoas, mediram as suas interpretações de maneira abrangente e também avaliaram as reações emocionais aos cenários. Se as interpretações das situações eram necessárias para compreender seu impacto nas reações emocionais, então o controle das interpretações deveria eliminar o impacto delas na previsão das reações emocionais. Em essência, e consistente com a visão de Lazarus (1991), as interpretações ou avaliações mediariam e explicariam totalmente o impacto emocional de situações relevantes para a emoção. Isso simplesmente não era o caso. As situações previam reações emocionais mesmo depois de controlar uma série de avaliações relevantes. Em outras palavras, e de acordo com a análise de LeDoux (1996), provavelmente existem alguns determinantes não-cognitivos das reações das pessoas aos estímulos emocionais (ver também Berkowitz e Harmon-Jones, 2004).

A visão de avaliação cognitiva de emoções de Lazarus (1984) resultou em um corpo de pesquisa que mostra que há relações sistemáticas entre avaliações cognitivas e reações emocionais autorrelatadas (ex., Smith e Ellsworth, 1985). Tais resultados, no entanto, são essencialmente de natureza correlacional, e uma confiança quase exclusiva em medidas autorrelatadas é agora considerada limitante (Smith e Kirby, 2001), até mesmo pelo próprio Lazarus (1995). Felizmente, há um punhado de investigadores de avaliação conduzindo trabalhos experimentais inovadores na área; este trabalho é revisado por Moors e Scherer (Capítulo 8 deste Manual). Entre outros pontos, eles sugerem que é uma tarefa intratável mostrar que toda reação emocional é mediada cognitivamente. A posição doutrinária de Lazarus (1984) foi, portanto, substituída por outra em que há maior nuance na compreensão de quando, como e por que a cognição desempenha um papel importante na compreensão das reações emocionais. A cognição também agora é definida em termos mais amplos. Por exemplo, MacLeod e Clarke (Capítulo 29 deste Manual) revisam as evidências para a ideia de que as manipulações da atenção seletiva, independente da avaliação cognitiva, têm uma influência causal na extensão em que as pessoas sentirão ansiedade ao encontrar um estressor.

 

A cognição é afetada por um estímulo anterior?

Principalmente com base nos resultados que envolvem o mero efeito de exposição, Zajonc (1980) sugeriu que as respostas afetivas a um estímulo precedem uma interpretação cognitiva desse estímulo. O mero efeito de exposição é aquele em que repetidas apresentações de um estímulo resultam em maior gosto por ele (Zajonc, 1998). Estudos têm mostrado que meros efeitos de exposição podem ser obtidos quando os estímulos são apresentados subliminarmente (Kunst-Wilson e Zajonc, 1980). Também existem estudos que mostram que as apresentações subliminares de estímulos afetivos podem influenciar avaliações de alvos neutros subsequentes (Murphy e Zajonc, 1993) e desencadear respostas de condutância da pele (Öhman e Soares, 1998), atividade muscular facial (Dimberg, Thunberg, e Elmehed, 2000) e atividade cerebral na amígdala (Morris, Öhman, e Dolan, 1998).

Esta linha de pesquisa certamente estabelece que as apresentações subliminares podem influenciar a resposta emocional, mas mostra que o afeto precede a cognição? Não, não mostra. Equacionar cognição com consciência é problemático porque as apresentações subliminares também alteram muitos processos cognitivos, incluindo aqueles relacionados ao priming[1] semântico (Kemp-Wheeler e Hill, 1988), preparação de resposta (Eimer e Schla-ghecken, 1998) e julgamentos que são principalmente de um tipo cognitivo (Bevan, 1964). Em outras palavras, não é garantido equiparar os processos inconscientes aos de natureza particularmente afetiva (Merikle, 2007). Fazer isso é fortemente influenciado por um modelo freudiano que se mostrou incorreto (Kihlstrom, Mulvaney, Tobias e Tobis, 2000).

Com base na análise de Rolls (1999), Storbeck, Robinson e McCourt (2006) sugeriram que uma certa forma básica de cognição - a saber, a identificação de estímulos - é necessária para a compreensão das reações afetivas dos indivíduos. No entanto, outros resultados na literatura sugerem que, em certos casos e em certos paradigmas, o afeto pode estar disponível antes de tais processos de identificação de estímulos (ex., Draine e Greenwald, 1998; Peyk, Schupp, Elbert, e Jung-höfer, 2008). Em última análise, então, sugerimos que é errado insistir em uma posição doutrinária em que o afeto necessariamente precede a cognição, embora admitamos a possibilidade de que isso às vezes seja verdade (Berridge e Winkielman, 2003; Dixon, 1981; LeDoux, 1996).

 

Cognição e emoção podem ser distinguidas?

Seguindo um precedente considerável (ex., Panksepp, 1998), LeDoux (1996) sugeriu que algumas estruturas subcorticais (mais proeminentemente, a amígdala, mas também a ínsula e os gânglios da base) se especializam no processamento emocional, enquanto as estruturas corticais do cérebro (mais proeminentemente, o córtex, mas também os córtices sensoriais) se especializam em processamento cognitivo. Questionando essa ideia, Duncan e Feldman Barrett (2007) sugeriram que tais divisões de trabalho não são aparentes e que as mesmas estruturas cerebrais parecem realizar tarefas cognitivas e emocionais. Por exemplo, a amígdala responde a eventos incertos de vários tipos (Whalen, 1998), regiões da resposta do córtex visual à excitação emocional (Peyk et al., 2008), e o córtex frontal também é surpreendentemente responsivo a estímulos e tarefas emocionais (Canli et al., 2001).

O que devemos fazer com essas ativações sobrepostas? Uma resposta é sugerir que as mesmas estruturas cerebrais respondem a eventos cognitivos e emocionais, mas que diferentes grupos de neurônios estão envolvidos. Em apoio a essa ideia, Bush, Luu e Posner (2000) descobriram, em sua metanálise, que diferentes regiões do córtex cingulado anterior respondem a conflitos cognitivos versus estímulos emocionais. O córtex frontal também é heterogêneo e há razões para pensar que diferentes regiões do córtex frontal medeiam o processamento emocional versus o controle cognitivo ou a inibição da resposta (Eisenberger, Lieberman, e Satpute, 2005). Estudos de registro de célula única apoiam ainda mais essa separabilidade do processamento cognitivo e emocional, em que neurônios específicos são sintonizados com características cognitivas versus emocionais de estímulos e tarefas realizadas neles, mesmo em casos em que tais neurônios são encontrados nas mesmas estruturas cerebrais e, de fato, juntos (Rolls, 1999).

Independentemente disso, os sistemas cognitivo (ex., é uma mesa?) e emocional (ex., é positivo ou negativo?) têm tarefas muito diferentes a realizar - tarefas que devem necessariamente recrutar redes neurais diferentes, mas parcialmente sobrepostas (Davidson, 2003; Rolls, 1999). Além disso, muitos resultados empíricos sugeriram que esses dois sistemas podem ser dissociados em vários paradigmas - como aqueles que envolvem efeitos de priming (Storbeck e Robinson, 2004), efeitos em julgamentos (Murphy e Zajonc, 1993), estudos de lesões (Damasio, 1994), e tomada de decisão moral (McClure et al., 2007). Consequentemente, nossa posição é que cognição e emoção são fenômenos diferentes. Embora as mesmas regiões do cérebro (Pessoa e Pereira, Capítulo 4 deste Manual) e os mesmos índices de processamento neural (Weinberg, Ferri, e Hajcak, Capítulo 3 deste Manual) possam ser ativados por estímulos cognitivos e emocionais, o processos e realizações relevantes precisam ser distinguidos (Izard, 2009).

 

Em suma

Os teóricos costumam fazer afirmações fortes sobre cognição e emoção. Elas vão desde sugestões de que cognição e emoção são independentes, que cognição é necessária para a emoção, que reações afetivas a estímulos precedem uma análise cognitiva e que cognição e emoção não podem ser distinguidas (mais ou menos todas as possibilidades!). Sugerimos que cada ponto de vista tem algum mérito algumas vezes, mas não pode ser considerado verdadeiro o tempo todo (ver Tabela 1.1). Cognição e emoção, a nosso ver, podem ser distinguidas, mas, ainda assim, interagem de várias maneiras (Izard, 2009), cujas nuances merecem um tratamento mais completo do que o disponível.

TABELA 1.1. Afirmações teóricas proeminentes sobre cognição e emoção e respostas

Posição

Defensor do exemplo

Nossa visão

 

Independência

 

LeDoux (1996)

Às vezes, mas nem sempre

 

A cognição é necessária

 

Lazarus (1984)

Às vezes, mas nem sempre

 

Primazia afetiva

 

Zajonc (1980)

Às vezes, mas nem sempre

Equivalência

Duncan e Feldman Barret (2007)

 

Às vezes, mas nem sempre

 

Público deste Manual

Este manual é publicado em um momento oportuno. A revista Cognition and Emotion foi lançada em 1987 e seu fator de impacto tem aumentado constantemente desde então. O jornal Emotion, da American Psychological Association foi lançado em 2001 e seu fator de impacto é admiravelmente alto. A revista Social Cognitive and Affective Neuroscience foi lançada em 2006 para fornecer uma saída para pesquisas emergentes em neurociência sociocognitiva, com interações cognição-emoção como foco principal. A revista Emotion Review foi criada em 2009. A revista Social and Personality Psychology Compass foi criada em 2007, com uma seção de motivação e emoção como uma de suas seções principais. A pesquisa sobre cognição e emoção está florescendo como nunca antes.

Nenhuma revista incluiu edições especiais ou seções do tipo atual. Alguns livros editados procuraram fazer isso, entretanto, e discutimos nosso manual à luz desses volumes anteriores. Dalgleish e Power (1999) publicaram um Handbook of Cognition e Emotion muitos anos atrás. O volume é excelente, mas seu conteúdo está desatualizado. Desde 1999, muitos avanços foram feitos na compreensão das interações cognitivas e emocionais, e o conteúdo do presente volume atesta esse fato. Eich, Kihlstrom, Bower, Forgas e Niedenthal (2000) publicaram um livro intitulado Cognition and Emotion, mas seu conteúdo se concentrou principalmente em uma teoria particular (Bower, 1981) de humor e cognição. Martin e Clore (2001) publicaram Theories of humor and cognition: a user guide, com foco nos efeitos do humor na cognição em psicologia social, uma pequena parte do presente volume. Mais recentemente, De Houwer e Hermans (2010) publicaram Cognition e Emotion: Reviews of Current Research e Theories, consistindo em um número relativamente pequeno de capítulos, nenhum dos quais aborda diretamente os processos de personalidade ou formas distintas de psicopatologia. No geral, então, o presente Manual é mais abrangente do que os últimos três livros editados e representa pesquisas de ponta em relação a um manual anterior com o mesmo nome.

O público principal deste Manual são estudantes de pós-graduação e pesquisadores cujo trabalho aborda, ou considera centralmente, o tópico da emoção. A emoção é um tópico presente em todas as áreas da psicologia, entretanto, e as abordagens de processamento cognitivo a ela são amplamente difundidas. Assim, um público diversificado é direcionado. O público secundário para o Manual são estudantes, pesquisadores, médicos e profissionais cujos interesses estão na emoção e suas ramificações aplicadas. Mais ou menos, os focos aqui - por exemplo, avaliações, considerações sociais, manifestações clínicas - podem ressoar com um público leitor mais amplo do que aquele visado principalmente. O Manual é adequado como texto principal para seminários sobre emoção ou cognição e emoção. É um texto primário em vez de suplementar, dada sua natureza abrangente, embora capítulos ou seções possam ser usados ​​como material suplementar para seminários em neurociência, psicologia cognitiva, psicologia social, julgamento e tomada de decisão, psicologia da personalidade ou psicologia clínica.

O que é especial sobre o livro é que ele representa um volume abrangente e atualizado que aborda as relações entre cognição e emoção. Os editores representam várias subdisciplinas da psicologia, assim como os capítulos. O que deve ser destacado é, portanto, a natureza abrangente, mas focada, do manual.

 

Seções, tópicos e capítulos

O departamento de psicologia típico consiste em subdisciplinas distintas - por exemplo, neurociência cognitiva, psicologia social, psicologia da personalidade e psicologia clínica. A emoção em geral e a cognição e a emoção em particular cruzam essas fronteiras típicas. Há um conjunto saudável de pesquisas sobre a neurociência cognitiva da emoção (ex., em relação a como o cérebro regula suas emoções); a emoção figura de forma proeminente em muitos fenômenos sociais (ex., dissonância cognitiva, efeitos do humor); alguns dos traços de personalidade mais importantes são afetivos em sua essência (ex., extroversão, neuroticismo); e muitas condições clínicas são marcadas por experiências de emoção negativa (ex., ansiedade, depressão) ou por dificuldades aparentes em regular emoções negativas (ex., transtorno de personalidade limítrofe). Mesmo em subdisciplinas particulares da psicologia, a interface cognição-emoção cruza tópicos que são tipicamente estudados independentemente uns dos outros. Na psicologia clínica, por exemplo, as pessoas tendem a se especializar em transtornos específicos, como transtorno de estresse pós-traumático, transtornos de ansiedade, depressão, transtorno de personalidade limítrofe ou psicopatia. Um objetivo principal do presente volume é unir subdisciplinas distintas da psicologia e tópicos distintos dentro de subdisciplinas específicas. Tais objetivos orientaram os temas selecionados e os colaboradores convidados.

O volume está dividido em seis partes. O primeiro é uma introdução ao campo de investigação (o presente capítulo). O segundo considera cognição e emoção de uma perspectiva biológica. O terceiro enfoca os principais processos cognitivos da emoção, como atenção, aprendizagem e memória. O quarto enfoca a cognição e a emoção na psicologia social. O quinto enfoca várias diferenças individuais - como inteligência emocional - que se beneficiam muito ao se considerar a interação entre cognição e emoção. A sexta seção enfoca os fenômenos clínicos, dado o excelente trabalho que tem sido realizado sobre cognição e emoção na literatura clínica. Aqui, declaramos resumidamente a importância de cada tópico do capítulo e seu escopo.

 

Capítulo 2: Neurogenética

A dopamina e a serotonina são neurotransmissores no cérebro que há muito se pensava desempenhar um papel importante na emoção e na reatividade emocional. Cada vez mais, os neurotransmissores e as abordagens genéticas da personalidade, emoção e psicopatologia têm demonstrado mérito considerável. Em seu capítulo, Nikolova, Bogdan e Hariri se concentram principalmente em quatro genes relacionados à dopamina e sua relevância na compreensão do processamento de recompensa humana, embora um escopo mais amplo desta abordagem de pesquisa também seja introduzido.

 

Capítulo 3: Eletrofisiologia

O cérebro costumava ser visto como uma "caixa preta". Os estímulos são apresentados e as respostas são feitas, mas por que as respostas são dadas a certos estímulos era em grande parte um mistério. Ao registrar a atividade cerebral havida no couro cabeludo e ligá-la aos estímulos apresentados (potenciais relacionados a eventos [ERPs]), ganhamos um conhecimento importante sobre o que o cérebro faz na percepção do estímulo e na preparação da resposta. Em seu capítulo, Weinberg, Ferri e Hajcak comparam e contrastam as influências relacionadas à atenção e à emoção no potencial positivo tardio. Entre outras conclusões, os autores sugerem que este componente ERP reflete as influências conjuntas de cognição (atenção) e emoção.

 

 Capítulo 4: Neuroimagem

Questões críticas relativas à cognição e emoção podem ser respondidas usando métodos de neuroimagem (ex., imagem de ressonância magnética funcional [fMRI]). Existem estruturas cerebrais distintas dedicadas à cognição e à emoção? Em seu capítulo, Pessoa e Pereira indicam que algumas evidências de estudos de fMRI apoiam relações antagônicas entre cognição e emoção, mas que cognição e emoção também se combinam de maneiras complexas para prever padrões de ativação em regiões do córtex pré-frontal. Observe que, em geral, essas descobertas não favorecem nem uma independência nem uma visão de equivalência de cognição e emoção (ver Tabela 1.1), mas sugerem que uma nuance maior é necessária para caracterizar como o cérebro processa as entradas cognitivas e emocionais.

 

Capítulo 5: Hormônios

Os hormônios são frequentemente secretados em resposta a situações emocionalmente evocativas. Compreender os fatores que predizem a liberação de hormônios fornece informações importantes sobre as interações cognição-emoção. Em seu capítulo, Wirth e Gaffey revisam o que se sabe sobre os hormônios do estresse, neurosteroides, testosterona e oxitocina em termos de fatores que predizem sua liberação, as consequências de tal liberação e a maneira pela qual a cognição e a emoção desempenham papéis importantes, bem como os respectivos papéis na compreensão da ligação entre hormônios e funcionamento social.


Capítulo 6: Atenção

Os processos atencionais têm desempenhado um papel fundamental na compreensão da base cognitiva da reatividade emocional e dos distúrbios emocionais. A primeira geração desse tipo de trabalho procurou demonstrar esse ponto em vários paradigmas relacionados à atenção. A segunda geração começou a fazer distinções entre os diferentes aspectos da atenção (ex., orientação versus desligamento). Em seu capítulo, Yiend, Barnicot e Koster revisam diferentes designs e tarefas de atenção que podem ser usados ​​para entender as interações cognição-emoção de uma perspectiva de atenção seletiva, bem como as múltiplas descobertas que se acumularam ao fazê-lo.

 

Capítulo 7: Aprendizagem e generalização

A aprendizagem é um processo cognitivo com implicações consideráveis ​​para a compreensão dos fenômenos emocionais. Uma forma importante de aprendizagem é de natureza afetiva: as pessoas aprendem a gostar ou não gostar de estímulos específicos com base no fato de terem sido associados a eventos relacionados a recompensa ou punição no passado. Uma questão de grande interesse é se tais associações afetivas generalizam para novos estímulos que são diferentes dos estímulos originais encontrados. Por exemplo, uma experiência de aprendizagem aversiva original (ser mordido por um cão em particular) pode generalizar para outros estímulos que não foram a fonte da experiência de aprendizagem aversiva original (ex., outros cães, outros animais e assim por diante), definindo o estágio para o desenvolvimento de fobias potenciais ou transtornos de ansiedade. Em seu capítulo, Hermans, Baeyens e Vervliet revisam essa literatura e suas aplicações potenciais para a compreensão dos distúrbios de ansiedade.

 

Capítulo 8: Avaliação

As teorias cognitivas da emoção há muito sugerem que as reações emocionais dependem de como os eventos são avaliados ou - em outras palavras - interpretados. Muitas das primeiras evidências para visões de avaliação da emoção envolviam autorrelatos e desenhos transversais. Grandes desenvolvimentos em favor de visões de avaliação da emoção ocorreram desde então. Em seu capítulo sobre o estado da arte, Moors e Scherer revisam o que sabemos até agora sobre o papel das avaliações na determinação de reações emocionais subsequentes, discutem vários projetos e as inferências que podem ser tiradas usando-os e oferecem recomendações perspicazes para trabalho futuro nesta área.

 

Capítulo 9: Memória

A emoção influencia o sistema de memória? As memórias desempenham um papel importante na compreensão das reações emocionais? Em seu capítulo, Murray, Holland e Kensinger revisam ambas as direções de influência, particularmente de uma perspectiva de memória episódica. As memórias episódicas são particulares ao tempo e ao lugar e são mais auto relevantes do que a maioria das memórias semânticas (ex., a Austrália é um continente). Murray e seus colegas destacam os mecanismos neurais e as condições de contorno, bem como sugerem direções futuras de pesquisa que podem ser defendidas para uma melhor compreensão da interface emoção-memória.

 

Capítulo 10: Metas

As metas podem ser conceituadas em termos cognitivos e como precipitadores de emoção. Ao pensar sobre seus objetivos, os indivíduos devem fazer a si mesmos certas perguntas-chave, como se estão fazendo progresso suficiente em direção a eles, se esforços redobrados podem ser desejáveis ​​e se é melhor abandonar certos objetivos. Todos esses processos relacionados ao objetivo provavelmente têm implicações para a compreensão das reações emocionais a eventos relevantes para o objetivo e, de fato, fenômenos emocionais mais gerais, como ruminação e depressão. Em seu capítulo, Carver e Scheier apresentam uma estrutura teórica para a compreensão das relações entre objetivos e emoções, revisam as descobertas dessa área de investigação e destacam as maneiras pelas quais uma perspectiva relacionada a metas pode enriquecer muito nossa compreensão das interações cognição-emoção.

 

Capítulo 11: Regulação da emoção

Os seres humanos têm capacidades únicas para regular suas emoções. Em que medida o fazem e como podem esses processos de regulação da emoção ser caracterizados? Certos processos de regulação emocional são geralmente mais benéficos do que outros? Regular as emoções de alguém, sugerem Suri, Sheppes e Gross, envolve necessariamente processos cognitivos, mas os processos envolvidos são diferentes e incluem distração de um estímulo emocional, tentando reaproveitá-lo como menos emocional e tentando suprimir as manifestações manifestas de alguém de reatividade emocional (ex., expressões faciais de emoção). Essas diferentes formas de regulação da emoção têm consequências diferentes. Essas evidências serão revisadas, com ênfase particular nas descobertas recentes.

 

Capítulo 12: Incorporação

Grande parte da pesquisa sobre cognição e (em menor grau) sobre emoção parece ignorar o fato de que as pessoas têm corpos que funcionam de maneiras específicas. Por exemplo, vemos coisas, cheiramos coisas, tocamos coisas e muitas vezes expressamos nossas emoções em termos de movimentos musculares do rosto. Até que ponto esses fatores importam? Na psicologia cognitiva, tem sido cada vez mais sugerido que nossos pensamentos são corporificados, o que em parte significa que eles surgem porque temos os corpos e órgãos sensoriais específicos que temos. Isso deve ser verdadeiro também para nossas reações e processamento emocionais. Em seu capítulo, Winkielman e Kavanagh revisam as teorias da incorporação e evidências relevantes no domínio da emoção, incluindo evidências recentes para a ideia de que metáforas (ex., estar fisicamente limpo é ser moral) parecem possuir um valor notável na compreensão de reações emocionais e sociais.

 

Capítulo 13: Efeitos do humor

Uma importante literatura sobre cognição social procurou determinar a maneira pela qual nossos estados de humor (ou emocionais) afetam nossas cognições e comportamentos. Embora seja claro que o fazem com frequência, também é claro que o fazem por meio de mecanismos e vias diferentes. Por esse motivo, uma estrutura integrada é necessária para a compreensão de tais efeitos. Em seu capítulo, Forgas e Koch revisam as evidências dessa literatura consistentes com uma perspectiva multimecanista dos efeitos do humor na cognição, no julgamento social e no comportamento.

 

Capítulo 14: Tomada de decisão

Os modelos tradicionais de tomada de decisão o tratam como um processo racional e não emocional. Cada vez mais, no entanto, a emoção tem mostrado que influencia a tomada de decisões de certas maneiras sistemáticas. Grande progresso foi feito na compreensão de tais influências. Em seu capítulo, Västfjäll e Slovic revisam trabalhos clássicos da literatura, fazem distinções importantes entre diferentes tipos de afeto e emoção e revisam também fontes recentes de dados. Eles oferecem uma revisão abrangente da pesquisa nesta área de tomada de decisão.

 

Capítulo 15: Autocontrole

O autocontrole é fundamental para o funcionamento bem-sucedido e envolve a superação de tendências ou comportamentos problemáticos (ex., procrastinar, comer alimentos gordurosos, beber muito álcool). Nossas emoções podem desempenhar um papel importante na compreensão das falhas de autocontrole versus sucessos. Por exemplo, a literatura clínica frequentemente sugere que estados emocionais negativos minam o autocontrole (ex., podemos comer demais quando estamos particularmente estressados). Em seu capítulo, Schmeichel e Inzlicht revisam essa literatura. Na primeira parte do capítulo, eles mostram que estados manipulados de emoção negativa, mais do que estados manipulados de emoção positiva, resultam em falhas de autocontrole subsequentes, e também revisam mecanismos potenciais relevantes para esse efeito. A segunda parte do capítulo, entretanto, sugere que os sinais afetivos de baixa intensidade (ou seja, emoções intensas não totalmente desenvolvidas) podem ser essenciais para o autocontrole eficaz. Em outras palavras, eles apresentam uma perspectiva diferenciada de quando o afeto facilita ou enfraquece o autocontrole.

 

Capítulo 16: Desenvolvimento

À medida que os bebês envelhecem, eles ganham novas habilidades cognitivas e também novas capacidades para regular seus estados emocionais. Uma perspectiva do desenvolvimento pode revelar se as habilidades cognitivas precedem as capacidades de regulação da emoção, como normalmente se supõe, ou se há uma relação mais complexa entre os desenvolvimentos nos domínios da cognição e da emoção. Em seu capítulo, Thompson e Winer revisam essa literatura de desenvolvimento. Eles sugerem que há relações bidirecionais entre desenvolvimentos em cognição e emoção e apresentam um caso convincente para a ideia de que essa análise de desenvolvimento pode informar e restringir como pensamos sobre as relações na idade adulta entre cognição e emoção.

 

Capítulo 17: Extroversão e neuroticismo

Extroversão e neuroticismo, respectivamente, predizem estados emocionais positivos e negativos. Por que eles fazem isso? Há um consenso geral de que tais relações não podem ser devidas à exposição diferencial a eventos positivos (extrovertidos) versus negativos (neuróticos), mas, além desse consenso, os mecanismos para tais relações têm sido pouco explorados na literatura sobre traços de personalidade. Em seu capítulo, Augustine, Larsen e Lee consideram abordagens cognitivas para entender as relações extroversão/emoção positiva e neuroticismo/emoção negativa e concluem que tais abordagens possuem mérito considerável. Os dados relacionados à atenção, julgamento, memória e reatividade emocional são revisados.

 

Capítulo 18: Abordagem comportamental e sistemas de inibição

Para sobreviver e prosperar, precisamos abordar estímulos recompensadores (ex., comida) e evitar estímulos ameaçadores (ex., hostis). Uma teoria proeminente sugere que essas duas funções são servidas por dois sistemas motivacionais implícitos, um denominado sistema de abordagem comportamental (BAS) e o outro denominado sistema de inibição comportamental (BIS). Em seu capítulo, Harmon-Jones, Price, Peterson, Gable e Harmon-Jones revisam um corpo substancial de evidências ligando diferenças individuais em BAS e BIS à ativação cerebral assimétrica, efeitos de sobressalto modulados por afeto, potenciais cerebrais relacionados a eventos, atenção, memória e aprendizagem. Entre outros fenômenos, há evidências de que indivíduos com alto BAS são mais reativos a estímulos recompensadores, enquanto indivíduos com alto BIS são mais reativos a estímulos ameaçadores.

 

Capítulo 19: Agradabilidade

A amabilidade é uma dimensão importante da personalidade com implicações para o funcionamento social e emoções como empatia e raiva. Em seu capítulo, Graziano e Tobin primeiro revisam os correlatos emocionais e comportamentais da amabilidade. Eles então revisam as evidências relacionadas ao temperamento para a ideia de que indivíduos agradáveis ​​são mais capazes de autorregular seus pensamentos e sentimentos problemáticos em relação a indivíduos com baixa agradabilidade. Finalmente, eles apresentam um modelo de processo dual de reações ao conflito interpessoal. A amabilidade pode ser conceituada em termos de uma motivação para manter relações positivas com os outros, o que tem importantes implicações para o fato de as pessoas agradáveis ​​serem menos preconceituosas e mais úteis em suas transações interpessoais. O modelo destaca os processos relacionados ao sofrimento pessoal e os processos de compensação relacionados à preocupação empática.

 

Capítulo 20: Inteligência emocional

Acredita-se que os indivíduos emocionalmente inteligentes percebam, usem e gerenciem melhor as emoções, tanto em si mesmo quanto em relação aos outros. A controvérsia rodeou as melhores formas de medir a inteligência emocional, se ela é distinta de outras características e habilidades, e se altos níveis dela estão associados a níveis mais elevados de bem-estar subjetivo e social, como a imprensa popular tem assumido. Em seu capítulo, Brackett et al. revisam considerações em favor de uma perspectiva de inteligência emocional relacionada à habilidade, evidências em favor de seus efeitos benéficos no funcionamento emocional e social e sua validade discriminante em relação a outras habilidades, como inteligência geral. Finalmente, os autores argumentam que, como outras habilidades, a inteligência emocional pode ser treinada. Vários programas inovadores têm procurado fazer isso, e os resultados têm se mostrado bastante promissores.

 

Capítulo 21: Pensamento repetitivo

Pesquisadores clínicos experimentais destacaram uma série de formas de pensamento repetitivo - por exemplo, ruminação, preocupação, reflexão, pensamentos intrusivos, obsessões - que podem contribuir e exacerbar resultados emocionais problemáticos entre indivíduos vulneráveis. Como esses processos podem ser entendidos? Eles podem ser mitigados? Em seu capítulo, Watkins sugere que o pensamento repetitivo, por si só, não é necessariamente mal adaptativo e às vezes pode ajudar na solução de problemas. No entanto, quando ocorre em combinação com afeto negativo ou depressão, geralmente resulta em resultados mal adaptativos. Além disso, o autor sugere que é fundamental distinguir entre formas concretas e abstratas de pensamento repetitivo. Embora as formas concretas de pensamento repetitivo possam às vezes ser funcionais, as formas abstratas de pensamento repetitivo parecem menos funcionais, prendendo alguns indivíduos em ciclos de ruminação e preocupação. Watkins também analisa as evidências de abordagens psicoterapêuticas recentes que visam processos de pensamento repetitivos.

 

 Capítulo 22: Transtorno de estresse pós-traumático

O estresse é inevitável na vida diária, mas alguns indivíduos encontram grandes estressores (ex., sendo agredido fisicamente) que desafiam a visão de um self eficaz em um mundo seguro. Em relação a esses principais estressores, algumas pessoas desenvolvem transtorno de estresse pós-traumático (PTSD), que é marcado por reviver o evento involuntariamente, elevada excitação fisiológica, evitação, ansiedade e depressão consideráveis, exaustão e problemas no trabalho e nos relacionamentos. Em seu capítulo, Ehring, Kleim e Ehlers consideram os processos cognitivos que são susceptíveis de manter e exacerbar os sintomas pós-traumáticos ao longo do tempo (ex., integração de memória deficiente, supressão de pensamento e ruminação) e se e como esses processos se combinam para prever tal sintomas. Eles pedem pesquisas futuras nas quais cognição e emoção sejam consideradas conjuntamente em modelos de PTSD.

 

Capítulo 23: Transtornos de ansiedade

Os transtornos de ansiedade são particularmente comuns. Portanto, é importante entender como as tendências de processamento cognitivo contribuem para esses transtornos. As perguntas incluem se há um núcleo cognitivo comum para os transtornos de ansiedade e se a pesquisa de um tipo cognitivo-emocional tem relevância translacional para a prática clínica. Em seu capítulo, Morrison, Gordon e Heimberg revisam vários paradigmas e fontes de evidências para uma perspectiva cognitiva dos transtornos de ansiedade. Morrison et al. revisam casos nos quais os vieses cognitivos relevantes convergem, mas às vezes são distintos. Eles também pedem pesquisas que examinem como os vários vieses cognitivos encontrados nos transtornos de ansiedade se relacionam uns com os outros. Finalmente, eles revisam estudos nos quais vieses cognitivos relacionados à ansiedade foram examinados como resultados de psicoterapia eficaz e geralmente favorecem essa linha de investigação no futuro.

                                                                               

Capítulo 24: Depressão

A depressão também é um distúrbio comum e é particularmente debilitante para os pacientes. Em seu capítulo, Clasen, Disner e Beevers revisam o que se sabe sobre os preconceitos cognitivos na depressão. Uma série de vieses cognitivos diferentes são revisados, desde aqueles relacionados à atenção àqueles relacionados à ruminação e regulação da emoção. Os autores também distinguem fatores cognitivos que predizem o início de episódios depressivos e aqueles associados à manutenção da depressão ao longo do tempo. Os fatores cognitivos envolvidos são provavelmente um pouco diferentes, com implicações distintas para as intervenções psicoterapêuticas. Em sua seção Future Directions, os autores revisam os dados disponíveis para a ideia de que os vieses cognitivos depressogênicos podem ser retreinados, por sua vez, aliviando o sofrimento e talvez até mudando o status diagnóstico.

 

Capítulo 25: Transtorno de personalidade borderline

O transtorno de personalidade limítrofe (TPB) é co-mórbido com muitas outras condições psiquiátricas. Além disso, pacientes limítrofes apresentam alto risco de automutilação e suicídio. Como esses sintomas podem ser compreendidos? Em seu capítulo, Carpenter, Bagby-Stone e Trull observam que a personalidade limítrofe é geralmente entendida em termos de emoções. Esses indivíduos podem ter níveis muito altos de emoção negativa, podem ter emoções instáveis ​​com o tempo e podem não ter consciência emocional. Em sua revisão, Carpenter et al. sugerem que há um problema mais fundamental: indivíduos com DBP, em relação aos controles, não conseguem regular sua atenção de maneira eficaz. Os autores revisam as evidências que apoiam este ponto em uma ampla variedade de fontes de dados (ex., comorbidade de DBP com outros transtornos) e detalham a maneira pela qual essa visão de desregulação da atenção do DBP pode ter um considerável mérito inexplorado.

 

Capítulo 26: Transtornos do espectro bipolar

Os transtornos do espectro bipolar são marcados por estados de mania e depressão. A depressão é frequentemente vista em termos de altos níveis de emoção negativa, mas esses estados depressivos podem frequentemente resultar de objetivos irrealistas e falhas em alcançá-los. Em seu capítulo, Alloy et al. sugerem que um BAS hiperativo ou hipersensível pode estar por trás desse conjunto de distúrbios. Esta perspectiva pode ser responsável por sintomas maníacos e depressivos exibidos por tais indivíduos e pode ser responsável por comorbidade (particularmente durante estados maníacos) com problemas comportamentais ligados a um sistema BAS hiperativo (ex., promiscuidade sexual, jogo e agressividade). É importante ressaltar que Alloy et al. reveja as evidências para a ideia de que níveis especialmente elevados de BAS podem prever sintomas bipolares em um momento posterior. Além disso, os autores consideram as implicações de seus resultados para o tratamento de transtornos do espectro bipolar.

 

Capítulo 27: Psicopatia

Aqueles com diagnóstico de transtorno de personalidade antissocial são impulsivos em seus comportamentos. No entanto, a impulsividade é multiplamente determinada. Em seu capítulo, Baskin-Sommers e Newman contrastam psicopatia com comportamentos externalizantes considerados mais amplamente (ex., delinquência, uso de drogas e agressividade). Com base em dados consideráveis, eles sugerem que os indivíduos psicopatas, em relação aos externalizadores, têm problemas únicos em regular sua atenção em um estágio inicial de processamento, são menos propensos a déficits de processamento executivo e exibem menos ativação neural em resposta a estímulos ameaçadores. Posteriormente, Baskin-Sommers e Newman apresentam um modelo integrativo de psicopatia e destacam a importância das interações cognição-emoção na compreensão desta forma única de comportamento antissocial.

 

Capítulo 28: Cognição e emoção em psicoterapia

As visões tradicionais da psicoterapia procuram atingir as cognições disfuncionais com a ideia de que isso deve ajudar a mitigar os problemas emocionais. Uma abordagem alternativa dentro da psicoterapia busca atingir as emoções disfuncionais, em vez das cognições que podem estar implícitos a elas. Em seu capítulo, Greenberg contrasta a base para esses alvos diferenciais da psicoterapia e a justificativa para procurar alterar emoções em vez de cognições. A psicoterapia focada na emoção ganhou força em áreas nas quais os distúrbios relevantes podem ser vistos como de natureza primariamente relacionada à emoção. O fato de a terapia frequentemente funcionar também é consistente com a ideia de que existem relações bidirecionais entre emoção e cognição, um tema geral do presente volume.

 

Capítulo 29: Modificação do preconceito cognitivo

Há muito se sabe que a ansiedade e a depressão estão associadas a vieses cognitivos relacionados à atenção seletiva e interpretação. Na medida em que tais vieses de processamento importam causalmente, as manipulações experimentais projetadas para reduzi-los deveriam reduzir o sofrimento. Em seu capítulo, MacLeod e Clarke revisam um corpo sistemático de trabalho para essa ideia. Por exemplo, as pessoas podem ser treinadas para evitar informações ameaçadoras, e foi demonstrado que as manipulações desse tipo de fato reduzem as experiências de angústia em resposta a fatores de estresse laboratoriais. Um conjunto de evidências mais recente sugere que o treinamento prolongado desse tipo cognitivo pode tornar os indivíduos “ansiosos” por um diagnóstico de “não ansiosos”, pode fazê-lo por pelo menos meio ano e pode fazê-lo em relação a várias categorias de diagnóstico. Embora haja considerável pesquisa a ser feita no futuro, esta linha de pesquisa, conforme revisada por MacLeod e Clarke, não tem precedentes em suas implicações causais, escopo e demonstrações de utilidade clínica. Seu capítulo é, portanto, o último do manual.


Conclusões

A tradição filosófica ocidental vê a cognição e a emoção como inimigas uma da outra (Lyons, 1999). Não acreditamos que isso seja sempre verdade, nem que a cognição e a emoção sejam necessariamente independentes, que a cognição seja necessária para a emoção, que o afeto sempre preceda a cognição ou que a cognição e a emoção sejam inseparáveis ​​ou equivalentes. Em vez disso, sugerimos que as relações entre cognição e emoção precisam ser investigadas, em vez de propostas a priori. O presente manual faz isso em muitas subdisciplinas da psicologia e tópicos específicos. Os fatos eram do nosso interesse. A declaração mais geral que podemos fazer com base nos capítulos e descobertas relatados é que cognição e emoção interagem de maneiras complexas que precisam ser apreciadas em termos diferenciados que requerem uma análise cuidadosa do contexto. Além disso, dada a extensa gama de interações entre cognição e emoção, argumentamos fortemente que há valor em normalmente considerar cognição e emoção juntas, em vez de isoladamente. Esperamos que o presente volume aponte esse ponto de maneira suficiente e o faça de várias maneiras, que serão informativas para os estudantes da área, bem como para os futuros pesquisadores.

 

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[1] Priming é um fenômeno pelo qual a exposição a um estímulo influencia a resposta a um estímulo subsequente, sem orientação ou intenção consciente. Por exemplo, a palavra enfermeira é reconhecida mais rapidamente após a palavra doutor do que após a palavra pão. O priming pode ser perceptivo, associativo, repetitivo, positivo, negativo, afetivo, semântico ou conceitual. [NT].

 


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